Damião Ramos Cavalcanti

Enquanto poeta morrer, a poesia haverá de viver

Textos



                           Meu Primeiro Cinema
        
        Para mim, confessei a Manuel Jaime, o cinema continua sendo o primeiro que vi na minha vida. O barulhento projetor de “ Seu”  Zé Ribeiro trazia alegria à cidade de Pilar, projetando no Mercado, sempre após o seriado,  um filme que alternava faroeste com Oscarito ou o Gordo e o Magro. Anunciavam-se sucessos, como O Ébrio, de Gilda de Abreu com Vicente Celestino, mas só boatos. Armava-se o tripé por trás dos sacos de farinha, que nos serviam de assento.  E, com quatro pregos, esticava-se o lençol amarrotado na parede que, nunca  lavado, perdia cada vez mais sua cor de tela. Tio Didi não comia daquelas sacas: “Farinha imunda, usada como tamborete pelos matutos no cinema”. Também como cama , onde dormiam esperando a feira do dia seguinte, ainda hoje no sábado. Esquisito que reclamasse apenas dos matutos; os da cidade podiam fazer sobre a farinha sujeira, que lhe passava despercebida. Por cima, os feirantes caipiras, mesmo já dentro do Mercado, ainda pagavam ingresso para assistir ao filme.
       Foi também naquele cinema onde se ensaiaram meus primeiros gritos de protesto. Meninos,  eu e Domício Pontes participávamos das reclamações  de gente grande. A fita, com inúmeros fotogramas emendados, rompia-se com facilidade, interrompendo a projeção aqui e acolá. Quando tudo voltava ao normal, a cena nunca era compreendida como sequência do enredo; alegava-se que o dono do cinema queria encurtar ou censurar a projeção e lá se vinha o grito: “Olha o roubo!”, o que depois escutei no Cine Ideal de Itabaiana e, em João Pessoa, excetuando-se o Plaza e o Municipal: no CineTorre, no São José, no Cine Glória, no Avenida , no Jaguaribe, no Santo Antonio, no Cine Brasil e até no Rex. Mas, para mim, foi em Pilar onde  se inventou este protesto.
       Havia figuras folclóricas, como Tonho Psiu, importantes quase como partes do cinema. Psiu se fazia encarregado de pedir silêncio. Tanto assim que era a ele e não ao dono do cinema a quem se reclamavam barulhos e conversas altas. Ninguém entendia inglês, mas ouvir o artista falando ainda era  novidade do cinema falado, graças também a constante intervenção de Tonho Psiu. “E quem já se viu boca falando sem fala?” Djalma atirava chicletes nos cabelos das meninas para provocar a reação do português Manuel: “ Não faça isso com as rapariguinhas!” Além disso, as chiques damas disputavam entre si, como na Igreja,  quem levava ao Mercado a melhor cadeira. Voltei a ir ao cinema não contadas vezes, em várias cidades, em diferentes mundos, até ser chamado de cinéfilo, a fundar cineclubes e a deles participar;  fui até convidado pelo mestre Wills Leal a ser da Academia Paraibana de Cinema. Mas, para mim, o meu “cinema paradiso” continua sendo aquele primeiro que vi na minha vida.

Damião Ramos Cavalcanti
Enviado por Damião Ramos Cavalcanti em 17/09/2010
Alterado em 18/09/2010
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