Damião Ramos Cavalcanti

Enquanto poeta morrer, a poesia haverá de viver

Textos


           Profissões que desaparecem

         
         
Fazia-se fila à porta do Gordo do Carburador, em Jaguaribe. Como sempre, dessa enchente de carros, nasceram, em torno do Gordo, pequenas oficinas de eletricista, especialista em escape, regulador de farol, pintor, consertador de porta, montador de som, até borracheiro. Porém, naquela rua, era o Gordo do Carburador quem pontificava. Motor fora de tempo, platinado desregulado, carburador sujo ou entupido, num minuto ele “tirava de letra”, diagnosticava de ouvido, olhando para o telhado. E, em mais quatorze minutos, deixava “o motor contando”, como o de fábrica. De repente, mudaram-lhe o nome. Começou a aparecer, nas oficinas vizinhas, carro sem platinado, sem carburador, substituídos por peças eletrônicas. Ele continuou gordo, mas sem ser do carburador.
         
         
Assim sucede com outras profissões, que restam apenas como reminiscências sociológicas: acendedor de lampião ou de poste, parteira, tocador de realejo, leitor de legenda no cinema, leiteiro, lavadeira, rezadora, aplicador de injeção, fotógrafo lambe-lambe, professor de datilografia, consertador de guarda-chuva, técnico de rádio ou televisão à vela ou relojoeiro de relógio de corda, contador de estórias, cantador de “incelença”, vendedor de pirulito, fogueteiro, amolador de tesoura, jornaleiro gritando manchetes, pãozeiro, peixeiro, verdureiro e até magarefes, que vendiam à porta da casa coisas de feira.
Andam sumidos engraxates e alfaiates e, infelizmente, também os agentes dos valores folclóricos. Não se lê mais, nos documentos, a profissão de “dona de casa”. Agora, a mulher trabalha e fora do lar.
         
         
A
mudança dos costumes e inovações tecnológicas transformam a mão de obra, reorganizando-a no mercado de trabalho. Bem sabem Gonzaga Rodrigues e Otinaldo Lourenço que a figura central do jornal era o linotipista. Sem emprego da linotipo, ficou desempregado o linotipista. Por tudo isso, imprecam a praga do desaparecimento do livro, também do jornal, que seriam absorvidos pelas crescentes utilidades da informática. Mas, quem ama as letras só se satisfaz com o livro e com o jornal, pegando no papel, sentindo a forma, o cheiro, o calor e a sua companhia.

Damião Ramos Cavalcanti
Enviado por Damião Ramos Cavalcanti em 28/01/2011
Alterado em 28/01/2011
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