Damião Ramos Cavalcanti

Enquanto poeta morrer, a poesia haverá de viver

Textos


 
                            Afonso Pereira
 

       - “Mortuus sum”.  Disse Afonso Pereira aos anjos. E, em deferência aos arcanjos, deixou de falar na língua-mãe, para expressar-se em nossa língua que sempre tratou com esmero e carinho: - “Morri. Mas, estou aqui para viver”. Suas palavras, acompanhadas pelo seu largo sorriso, sem limites de tempo e espaço, ecoaram até os recônditos do infinito. Foram ouvidas por todos que já partiram, especialmente, pelos amigos e os seus. Tristeza aqui para nós, mas alegria entre eles, que gozam um permanente estado de júbilo. E lá estão os que, há pouco tempo, conviviam por aqui com o seu quotidiano: Pedro Anísio Dantas, Dom Luís Fernandes, Durmeval Trigueiro Mendes, Mário Moacyr Porto, Milton Paiva, Tarcísio Burity, Lindeberg Farias, Sivuca, Dom Manuel Pereira, Sindulfo Santiago, Amaury Vasconcelos, Altimar Pimentel e o saudoso imortal Francisco Pereira Nóbrega.
       Já sabiam que ele estava chegando. Nada mais precisou dizer. Tudo anotado. Dos pequenos aos grandes feitos; da Fundação Padre Ibiapina aos Institutos Paraibanos de Educação; das antigas escolas primárias, faculdades e universidades ao bem alicerçado e majestoso UNIPÊ, onde privilegiou o ensino superior com Flávio Colaço Chaves, José Loureiro Lopes, José Trigueiro do Vale, Manuel Batista de Medeiros e Marcos Augusto Trindade. Até mesmo os pequenos boletins, que redigiu em vida, constavam ao lado de todas as edições do jornal “Correio da Paraíba”, do qual Afonso foi fundador e diretor. Foi também deputado estadual, fundador e ex-presidente da Alliance Française em João Pessoa.
       Lá em cima, tudo isso se registrou, de modo mais perfeito do que no Arquivo Afonso Pereira (AAP), criado e muito bem organizado pela paixão e amor da sua dileta esposa Clemilde. Lá, ninguém precisa dessas informações escritas, gravadas ou fotografadas. Mas, se aqui, eventualmente, alguém, por questão de circunstância, precisar conhecer mais da nobre “persona” do Professor Afonso Pereira da Silva, visite o AAP que leva à frente o seu nome, no cultural bairro de Jaguaribe. Trata-se de um extenso e rico acervo sobre a vida e obras desse ilustre paraibano.
       O Professor Afonso Pereira era um homem que pensava alto. Nas raízes das suas idéias, encontrava-se subjacente a filosofia; na sua retidão de conduta, o direito; no seu fazer, como meta, a sã utopia de um Tomas Morus. Seu otimismo convencia os pessimistas, por conseguir realizar sempre o melhor.  A sua conversa, permeada com termos definidos nos mitos, avizinhava-se das alturas do Olimpo. E, de tanto nos ensinar os mitos antigos e modernos, deixou, para nós paraibanos, impressionantes lições, retiradas dos heróis e deuses das diferentes culturas. Por estas e outras razões, destacou-se na Academia Paraibana de Letras como humanista de vasta erudição.
          Homem de fé, não se abalava pelos desafios. Desse firme e constante relacionamento com Deus, saíram suas definitivas e profundas palavras, enrequecidas pelo Salmo 118: “Abri-me as portas da justiça, vou entrar para render graças ao Senhor”. E completou: – “Morri. Mas, estou aqui para viver”.

Damião Ramos Cavalcanti
Enviado por Damião Ramos Cavalcanti em 28/08/2011
Alterado em 28/08/2011
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