Damião Ramos Cavalcanti

Enquanto poeta morrer, a poesia haverá de viver

Textos


O ciúme desgraça o amor
 
          Contavam os gregos aos romanos, pelos ventos dos mares que vinham das suas ilhas, que Céfalo e Prócris se amavam como ninguém. O marido Céfalo vivia como caçador na floresta, entre matas e bosques. Caçando e somente caçando, mostrava-se indiferente à paixão que insistentemente lhe oferecia Aurora, pois satisfazia-se com o amor e os carinhos que sua mulher Prócris lhe dedicava. Aurora, irada com a indiferença de Céfalo, rogou-lhe a praga de que, em algum dia, haveria de lhe acontecer uma desgraça.

          Ignorando esse fatídico augúrio, certo dia Céfalo, fatigado das suas caminhadas à procura de caça, deitou-se nas folhas retiradas das árvores pelo outono. Observado por Aurora, olhou para os ventos no céu e sussurrou: “Suave brisa, vem e leva o calor que me queima”.  Aurora escutou suas palavras e correu para dizer à Prócris o que acabara de ouvir, acrescentando que Céfalo, durante as longas horas de caçada, encontrava-se com uma amante, chamada de Brisa, deitava-se com ela no bosque, sempre ao entardecer, antes de voltar para casa.  

          A instigante intriga, tramada por Aurora, levou Prócris a se enciumar e a seguir, furtivamente, escondida entre os arbustos, seu marido caçador, até que, exausto, ele se deitou na grama e pediu aos ventos as costumeiras carícias: “Vem, brisa suave, vem afagar-me, apaga este calor”.  Sua companheira Prócris reconheceu a voz do marido, acreditou no enredo de Aurora e, arrebatada por um agudo ciúme, debulhou-se em pranto. Seu marido caçador, imaginando a proximidade de alguma caça atrás da folhagem, atirou seu dardo contra o estranho barulho que provinha da moita, acertando sua querida Prócris. Rastreou a presa atingida e encontrou sua amada que, ensanguentada e agonizante, lhe implorou: “Amado Céfalo, nunca se case com essa perversa Brisa, que causou entre nós essa tragédia”.  Também em lágrimas, Céfalo lhe explicou que a brisa a que falava era apenas o vento. Assim terminava esse conto. O ciúme cresce envenenando a confiança; faz sofrer os amantes; mata o amor e, às vezes, os amados.  Recontavam os romanos que o jovem caçador vagou para sempre na floresta e, perdido da poesia, nunca mais recitou versos ao vento.
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Damião Ramos Cavalcanti
Enviado por Damião Ramos Cavalcanti em 15/03/2012
Alterado em 23/03/2012
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