Damião Ramos Cavalcanti

Enquanto poeta morrer, a poesia haverá de viver

Textos


 
 Dia 13, dia 15, marcha e contramarcha
 
          Marcha para mim, quando era menino, resumia-se aos ensaios para sete de setembro; era nesse dia em que as crianças, bem fardadas e aplaudidas pelos pais, desfilavam nas ruas de Itabaiana. Também os soldados do TG 148, do sargento Barroso, admirados nas suas destrezas, marchavam todos os dias, ensaiando a comemoração do “Dia da Pátria”. Nunca aprendi, naquela época,”marcha”  com outro sentido. Somente depois, com o desenrolar dos acontecimentos, escutei músicas, caracterizadas pelo compasso binário ou quaternário, serem chamadas de “marcha militar”, “marcha nupcial” ou “marcha fúnebre”...
          
Dias atrás, dois ou três conhecidos fizeram-me lembrar desse assunto, ao me convidarem para uma marcha. Fiquei confuso, não sabendo se tal marcha seria no dia 13 ou no dia 15. Logo esclareceram que haveria duas, uma contra a outra; separadas como, no campo, fanáticos “tifosi” das torcidas de futebol.  Senhoras do dia 15 muito usaram a mídia e a internet para convencer os convidados de que Deus iria à sua marcha e abençoaria tanto os caminhantes como também “os idos de março”...
          
Mas a História serve para, no passado, compreendermos o presente e prevermos o futuro... Não esqueçamos que, há 51 anos, “mulheres paulistas e mineiras”, no dia 19 de março, organizaram passeata com rosários e bíblias, intitulando-se com faixas: “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”; bateram panelas, rezaram aos céus e protestaram a legitimidade do Governo. Tudo isso em resposta ao Comício de João Goulart, no dia 13, na Central do Brasil, no Rio, anunciando “Reformas de Base”. Nesse embate, a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” foi vitoriosa. Contudo, naquela ocasião, Deus não marchou com elas ou com eles, pois, a partir de então, sofremos 21 anos de falta de liberdade, de censura, até readquirirmos o respeito pelas eleições democráticas, hoje vigentes. Enfim, comete-se o grave pecado, como no tempo das Cruzadas, da Inquisição, e agora do radicalismo religioso islâmico, de se praticar asneira “em nome de Deus”... Ele não aceita convite para qualquer “marcha”, especialmente em defesa de cizânias políticas e ideológicas. Deus recomenda tanto respeito a Si e à liberdade que, para preservar a nossa, deixa que erremos, dando-nos o “livre arbítrio”. Por isso, Ele  jamais participaria dos panelaços teatralizados, nem serviria de estandarte a qualquer passeata. Nem tudo que podemos devemos, como passar os  limites da liberdade ou usar, por aí,” o santo nome de Deus em vão”...
Damião Ramos Cavalcanti
Enviado por Damião Ramos Cavalcanti em 12/03/2015
Alterado em 12/03/2015
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