Damião Ramos Cavalcanti

Enquanto poeta morrer, a poesia haverá de viver

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                               Das coisas à memória


         Logo nos primeiros anos da pré-adolescência, comecei  a escutar e a tentar compreender pregações e admoestações para "não amar coisas materiais". Consciente de que a matéria do corpo constitui também minha inteireza, observava também que bens materiais contradiziam um ou outro que apregoava  pobreza radical ou exageradamente  sobre-estimava a "riqueza espiritual" acima de qualquer "riqueza material". Também logo percebi o pouco eco desse radicalismo num mundo amante da matéria e das coisas , especialmente, as que simbolizavam a riqueza e suas luxúrias. Como entrar nesse oceano sem se molhar? Como sair o peixe d'água doce, com pouco sal no corpo,  para sobreviver no oceano de água salgada?
          Foi quando, no silêncio, contra-ecoou uma voz admoestando ao equilíbrio: O "Dai a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus" dos evangelhos; o "virtus in medio" de Aristóteles ou a "ataraxia" dos epicuristas. Nesse encontro de águas, somente o equilíbrio do sal ajudará o peixe d'água doce a adaptar-se ao mar, e o do mar, ao rio... Todavia, o mandamento de "amar a Deus acima de todas as coisas" não repercute em quem não nasceu para ser, mas para ter,  acontecendo-lhe o inconcebível: Esses amam as coisas acima de Deus e de si mesmos...  
          Há quem não ame as coisas , nem as jogue ao lixo,  mas se apegue a elas. Esse apego  cresce na velhice, quando tais coisas fazem recordar o passado, parte maior da vida; despertam lembranças e levam-nos à memória, simbolizando vividas circunstâncias. Nesse sentido,  como o peixe precisa da água para sobreviver, a memória coletiva necessita do patrimônio histórico da cidade, de coisas que devem ser amadas por terem sido espaço do tempo que se foi ou lugar da realização da nossa história.  
Damião Ramos Cavalcanti
Enviado por Damião Ramos Cavalcanti em 08/04/2016
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