Damião Ramos Cavalcanti

Enquanto poeta morrer, a poesia haverá de viver

Textos


                       Mata-se o poeta; não, a poesia

         A poesia se constitui mais de sentimentos do que de versos. O poeta ou a poetisa se faz do sentimento; como o rio, da fonte. Sem sentimento ninguém é poeta,  até se plagia a poesia alheia; mas , não, o sentimento. Assim o poeta é o mais original dos escritores, escreve o que canta, do fundo da sua alma, canção que lhe é particular. Mas quando seu teor vira poesia, ela se universaliza, relativizando-se  em cada leitor. Por isso, imitar tal e qual determinado poeta logo é denunciante, pois a poesia, inconfundivelmente, torna-se "persona" do poeta que a escreve. 
          É verdade que, sendo gente de sentimento, o poeta sente as dores dos outros e as suas, as contradições da vida, o fogo dos incendiários,  a luta dos guerreiros, o sofrer da natureza, a mordida dos caninos, o frio da neve, a seca do sertão ou os últimos ou duradouros dias dos sobreviventes, como Sitonio Pinto, em Dom Sertão e Dona Seca, parecendo que para isso sobrevivessem os euclidianos sertanejos ...  O poeta segue destino difícil, de sol sem sombras, de lua sem luar, de terra sem chuva. Se o sentimento gera o poeta, então só existem poetas depois do sentimento; e ao aprenderem palavras, desfiam o sentimento como um novelo adquirido depois  de paridos; tecem tapetes infindáveis à busca da Musa, como Penélope à espera de Ulisses.
          Quem tem sentimento não deixa de sentir as dores dos outros , as agruras do povo, os desejos de liberdade e a violência das repressões, assumindo uma ideologia. Isso está na História: Poetas que tentaram anarquizar regimes totalitários, o  nazismo, o fascismo. Por isso, na Espanha, os fascistas perseguiram o sentimento e mataram seu poeta maior; soldados fuzilaram García Lorca não sabendo que matavam um poeta, obedecendo ordem de dar fim ao seu sentimento. Mas, quando se assassina um poeta,  não se mata a poesia. Por aí,  ainda nessas trágicas histórias, o sentimento abre os olhos à miopia dos que vêem, daí a poesia... 
Damião Ramos Cavalcanti
Enviado por Damião Ramos Cavalcanti em 04/06/2016
Alterado em 04/06/2016
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Damião Ramos Cavalcanti). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras
http://www.drc.recantodasletras.com.br/index.php