Damião Ramos Cavalcanti

Enquanto poeta morrer, a poesia haverá de viver

Textos


                                            Amália, 108 anos de lucidez

          Como de costume, às vésperas do dia 25 de dezembro, iniciei telefonemas a amigas e amigos, desejando-lhes Feliz Natal. Ao chegar a vez de Rui Gomes Dantas e sua querida Tânia, ambos em Recife e respectivamente primogênito e nora de Dona Amália, ele me informou sobre a saúde da sua genitora; em certa idade, o assunto vem à tona, logo se fala disso: "Levantou-se do leito e, lépida, vestiu a roupa para as festas de fim de ano; aqui está para assistir à Missa de Natal com a família". Somente o filho Marconi tardou a chegar, mas a dileta mãe, passando a vista na ninhada, sentiu uma vaga debaixo das suas asas: "Onde está Marconi?"; exigindo a Ronaldo e a Paulo Antonio que se completasse, na sua presença, a família. De pronto, como  sempre, foi obedecida, já que Murilo, in memoriam, convive quotidianamente com ela. Ora, se ela segue diligentemente afazeres de casa e depósitos bancários da aposentadoria, tenha-se em conta como também ainda cuida das distâncias e das aproximações dos seus amados, mesmo crescidos, mas maiores tesouros no seu coração. Sobre eles assim escreveu: "Em recompensa desta união de amor, Deus nos presenteou com cinco filhos maravilhosos".
          Depois dos festejos natalinos, essa patoense sertaneja euclidiana recuperou forças e graças para o novo ano.  E na manhã de 2017, voltei a falar com Rui que me deu o feliz presente: "Ah! Ela está aqui na sala, sentada na cadeira de balanço; veja-a pelo telefone". Dona Amália, com um belo e suave sorriso, vivamente fitou a câmara e, senhora das suas palavras, saudou-me: "Olá, Damião, como passou as festas de Natal e Ano Novo?" . Impressionante: Longeva, incansável, quase quarenta mil dias de luta, mas não abandona o "bom combate".
          Testemunhos levam-nos a imaginar que, em outras circunstâncias, Ataulfo Alves, respeitando a ordem alfabética, cantaria: "Amália é que era mulher de verdade"... Antecipou-se a essa fantasiosa seresta o então jovem Antonio Dantas de Almeida, tornando-se seu esposo; promotor, depois juiz emérito, de respeitada cidadania nas terras paraibanas de Patos. Partiu à "Cidade de Deus" sem a companheira: Mulher bela, sábia, alegre, forte, corajosa e carinhosa, "perfeita senhora de casa", como diz a Bíblia: "Nela confia seu marido, e a ele não faltam riquezas. Traz-lhe a felicidade (...). Na praça o seu marido é respeitado, quando está entre os anciãos da cidade (...). Abre a boca com sabedoria , e sua língua ensina bondade (...). Seus filhos levantam-se para saudá-la, seu marido canta-lhe louvores (...). A mulher que teme a Iahweh merece louvor! (Provérbios, 31, 10 a 31)". Assim é Amália, quanta diáfana lucidez! 
        
 
 
Damião Ramos Cavalcanti
Enviado por Damião Ramos Cavalcanti em 06/01/2017
Alterado em 10/01/2017
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