Damião Ramos Cavalcanti

Enquanto poeta morrer, a poesia haverá de viver

Textos



                        Existencialismo na solidão

             Viver sozinho, num planeta desabitado, não é experimentar a pior das solidões: a maior solidão é a de quem não se conhece e não se encontra consigo mesmo.  Alguns eremitas, ao procurarem o autoconhecimento, alcançam essa consciência existencial. Vivem a ataraxia, no ermo das montanhas, das matas, levando uma vida isolada. Morar sozinho também pode ser fuga: escapar de ofender os outros ou de ser ofendido por eles. A solidão excêntrica, quando sã e prometendo epifanias, caracteriza-se como coisa de santo. O pecado é não enfrentar o desafio de conviver com os outros.
          Só num planeta desabitado? Não. Há quem, quase saindo da Terra pelo topo da montanha, como um solitário tibetano, sentado numa dura pedra de alguma caverna, adquire extraordinária força mental, levita o corpo do chão e, sem falar, comunica-se com o universo como se dominasse a física da natureza. Mas, fugindo do convívio com os outros, não ultrapassa a estratosfera que separa os terrestres dos planetas isolados, como os astronautas, sofrendo o perigo e o calor da nave externamente em chamas, a rasgarem  cortinas de fogo para regressar à Terra. 
          O solitário, em equilíbrio, desfruta plena existência, na descoberta de si mesmo, à busca da verdade, harmonizando corpo e espírito, desvendando mistérios só compreensíveis na silenciosa ambiência meditativa, ausente do frêmito das ruas e liberto da apregoada "concorrência para ter". Parece loucura nesse mundo de ganâncias. Mas, sabiamente, conversa consigo mesmo ou com pessoas a distância, noutras montanhas, sentindo crescente intensidade existencial. Porém, não no convívio com os outros, evitando passar pelo corredor de fogo que separa os terrestres dos planetas isolados. Trancafiado, sem a simples liberdade e a existencial, num andar do arranha-céu, num cômodo e enfeitado apartamento, há quem tente tudo isso. Mas, assim, como vivenciar a montanha e penetrar mais dentro de si mesmo? Relembro os momentos de solidão na minha infância, onde ou quando se escondiam "brinquedos proibidos" (Jeux Interdits). E  fora desses espaços solitários, havia bem maior liberdade existencial com os outros, jogando bola ou soltando pipa...

 
Damião Ramos Cavalcanti
Enviado por Damião Ramos Cavalcanti em 07/12/2017
Alterado em 12/12/2017
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