Damião Ramos Cavalcanti

Enquanto poeta morrer, a poesia haverá de viver

Textos


                                                   
                                 Mariz, Ricardo ou João Azevedo

           Em Pilar, quando eu era pequeno, Pilar também era pequeno, mesmo assim esse velho lugar me fez ter medo de cigano. Duas coisas amedrontavam as crianças: o anúncio pelo rádio de que a enchente vinha das bandas de Boqueirão, pelo Rio Paraíba abaixo, já perto de Itabaiana, arrastando bois, porcos, cavalos e árvores, e entrando pelas casas; e o boato de que os ciganos estavam na estrada, próxima a Pilar. Quanto à enchente, Dona Vicenza, nas aulas de catecismo, aumentava as águas, descrevendo o dilúvio bíblico e o enorme barco de Noé; quanto aos ciganos, os adultos mentiam, discriminando-os, que eles viriam para saquear a cidade. Em todos os sentidos, era uma correria.
          E os ciganos, onde morariam? Era dito que se tratava de “um povo sem casa, vagando pelo mundo, acampando aqui e acolá”, como uma nação nômade, como se fossem judeus, saídos do Egito, à procura de uma terra para ficar. Seus primeiros acampamentos parecem ter sido no deserto, como a tenda de Abraão que é tido como um deles. E daí, deram para “arranchar” pelo mundo inteiro. Muito conversei com o amigo Franz Moonen, antropólogo holandês, quando trabalhávamos na Universidade e morávamos vizinhos, no Bessa. Dizia ele ter visto ciganos no seu país, os Países Baixos; e que também, perambulavam pela Índia, Rússia, Iugoslávia, Hungria, Polônia, Inglaterra, França, Itália e Alemanha, onde foram perseguidos pelos nazistas. Na Espanha, eu os visitei num morro da cidade de Sevilha, onde me maravilhei com lindas mulheres dançando, com vestidos típicos, “arrequebrando”, com rítmica batida de pés no tablado e, nas mãos, estridentes castanholas. Em qualquer dessas cidades, sempre seus costumes, seus hábitos, são os mesmos que os caracterizam numa só cultura. Tão forte atividade, como a dança e o canto, é a quiromancia lendo as linhas das mãos ou adivinhando o futuro nas cartas do baralho cigano ou no tarô.
          Um dos dias de 1973, vi dezenas deles, na estrada de Itaporanga, a caminho de não sei aonde. Pedi para parar a rural, que logo foi cercada por mãos pedindo ajuda ou oferecendo lindos tachos de bronze, para eu comprá-los ou trocá-los pelo meu relógio. Em vez de negociar, não tirei o olhar dos lindos olhos verdes, intensamente verdes, de uma morena cigana, pele de jambo, com longos cabelos da cor da graúna. Foi uma das mais belas “evas” que mais me impressionaram na minha vida. Perguntei-lhe aonde iria; o que logo respondeu o pai, em postura de proteção: Sousa. Muitos deles se encantaram com essa Cidade Sorriso, construindo ranchos mais permanentes do que seu tradicional nomadismo.
          Dias atrás, fui à Sousa para discutir com o Prefeito, o Secretário de Cultura e sua equipe, sobre como pôr em prática a Meta Cultural de João Azevedo de “valorizar e resgatar as culturas indígena, quilombola e cigana”. Disso sabiam muito por cuidarem desse bairro sousense. E foi daí que surgiu o Festival de Artes Ciganas a se realizar, no dia 25 vindouro, na Praça da Matriz. Após a reunião, fui com Gil e a muito amada pelos ciganos Mariah, visitar os ranchos, conversar, tomar café e até cantar com eles. Cantar se mostrou a preferência dos ranchos. Em torno de tudo aquilo, havia curiosos que nos espiavam, meninas e meninos que brincavam, chamados por nomes que não me eram estranhos. Os ciganos são fiéis à gratidão. São extremamente gratos, nisso observei que colocam nos seus filhos e filhas os nomes completos dos seus benfeitores. Em torno dos grupos de conversa, havia sempre crianças e jovens, chamados pelo nome de Antônio Mariz, Luciano Maia, Mariah Marques, Ricardo Coutinho ou João Azevedo...   

          

 
Damião Ramos Cavalcanti
Enviado por Damião Ramos Cavalcanti em 08/05/2019
Alterado em 12/05/2019
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