Damião Ramos Cavalcanti

Enquanto poeta morrer, a poesia haverá de viver

Textos



                                            Quando achar não é achar...

            Há quem ande de cabeça baixa, olhando o chão, feito porco. Vez ou outra, esbarra num poste, faz um galo na testa. Mas, passa gelo no calombo e aí volta a caminhar sem olhar pra frente, na esperança de que vai encontrar alguma coisa perdida de valor. Quem assim age, nada perde... Contudo acha que os outros tiveram tal descuido, deixaram que caísse qualquer objeto nas pressas da vida. Fora o porco, muitos bichos também andam sem levantar a cabeça, feito galinha de capoeira, bicando o chão, até encher o papo. Na minha vida, jamais achei alguma coisa, na rua, na estrada, no mercado, no mato ou na igreja. Talvez seja porque eu levei muitos gritos do meu pai, voltando da loja pra casa, até ao subir a ladeira ao Alto dos Currais, em Itabaiana: “Levante a cabeça, menino, porco é quem anda de cabeça baixa”. E também por isso, nunca esbarrei num poste.
          Contrário de mim, conheço pessoas que vive achando joias, moedas, dinheiro de papel e até carteiras, com notas do real e, no exterior, também com alguns dólares. Para dizer a verdade, num dia desses, achei uma promissória, na calçada do banco e, durante a vida, algumas besteiras: tampa de garrafa grapette, carteira de cigarro pela metade e botão de paletó... Achar só é achar, quando o objeto for deixado por descuido, quando ele caiu sem que o dono percebesse o que estava perdendo. Quando morei uns anos em Paris, vi abandonado na rua, por onde passava o caminhão de lixo, piano, geladeira, televisão, liquidificadores e até alguns móveis sem braço ou sem perna; e alguns não carecendo de conserto. Certo dia, o meu amigo Luizito Rodrigues inventou de ajeitar uma velha máquina de lavar roupa Frigidaire. Não encontramos, no comércio, peças de reposição; era, no rigor do termo, obsoleta e condenada ao desaparecimento pelo mercado de produção. Então, ele fez as peças num truque de bricolagem. Ela funcionou, mas para enxugar as roupas, pulava como um canguru; eu não lavava roupa, mas trabalhava muito, atracando-me com ela para que tal gerigonça não saísse do lugar. De tanto o vizinho de baixo reclamar o barulho, devolvi à rua a bendita máquina. E fiquei convencido de que não se “acha” coisa deixada na rua...
          Lembro-me bem que, no meu curso de Direito, perguntamos ao Professor Tarcísio Fernandes se é licito você achar para si animal que anda solto na rua, com cara de bicho fujão. Ensinou-nos: mesmo que seja um cachorro que mereça estimação, você deve procurar o dono do bicho perdido ou, até se for um cágado, deixar que se vá embora. Sorte teve Zé de Dorinha, nos idos de 1968, em Paris, quando estava liso e com fome, Dorinha tropeçou e caiu na Avenue D’Italie; quando ele foi levantar a mulher, havia, sem dono, debaixo dela, uma nota dobrada de cem francos franceses. Isso é sorte; sem sorte é “achar”, num estacionamento, notas como essa, numa carteira polpuda de documentos, RG, endereço e telefone, CPF e tudo, o que impõe o dever moral de ir à casa do perdedor em troca de apenas um sorridente “muito obrigado”. Assim é que se faz, mesmo quando a bolsa achada e surrada identifica a quem pertence e contenha somente a conta de luz, quatro frisos, uma escova de cabelo e um batom.
          Dias atrás, perdi a chave do carro, saí olhando pro chão e muita gente perguntando-me: “Perdeu alguma coisa?”... Achei um chaveiro cheio de chaves e o seu dono no caixa do supermercado, que me agradeceu sorridente. Ao sair do supermercado, estava o flanelinha, com a chave do meu carro, e a me cobrar R$ 50,00 por tê-la achado. Contra isso, propague-se o “serviço de achados e perdidos”. Concluo que melhor do que achar é não perder, nem mesmo botão de camisa, tampouco caneta ou lápis de escrever.       

 
Damião Ramos Cavalcanti
Enviado por Damião Ramos Cavalcanti em 21/05/2019
Alterado em 21/05/2019
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