Criança, obra divina
A criança é uma obra puramente divina, argila de beleza e de simplicidade. Com facilidade saem e entram nos céus porque são assim, com muito amor, acolhidas. Ao serem repreendidas pelos discípulos, Jesus os reprovou: “Deixai as crianças e não as impeçais de vir a mim, pois delas é o Reino dos Céus”. Fazem as igrejas do interior sinal quando elas morrem: Os sinos repicam em batidas diferenciadas, avisando-nos que mais um anjo voltou ao Céu... Porém, enquanto crescem e se transformam em gente do nosso tamanho, ganham os nossos vícios e se tornam menos sinceras, aprendendo, por interesse, inclusive a mentir.
Em Gaza, as crianças mortas pelas armas e bombas são sepultadas sem o toque desses sinos, apenas, depois dos clarões dos bombardeios, logo são embrulhadas em lençóis brancos e, como se fossem pacotes, entregues ao pai ou à mãe; se esses pais já estiverem mortos, as crianças sobreviventes são adotadas por parentes ou conhecidos. E se já órfãos sem família, serão entregues ao UNICEF, que assim continua reclamando: “A escalada das hostilidades na Faixa de Gaza está tendo um impacto catastrófico nas crianças, nos adolescentes e nas famílias. Meninas e meninos estão morrendo em um ritmo alarmante - mais de 5 mil foram mortos e milhares ficaram feridos.”
Por lá, em lágrimas, como em muitas partes do mundo, não se comemorará, como aqui, o Dia da Criança... Comemoração universal, porque sem criança, a humanidade, morrendo, diminuirá até os seus últimos idosos... Isso já preocupa os países que andam alimentando a cultura de homens e mulheres que adotam a decisão de não terem a responsabilidade e outras preocupações de terem filhos, no máximo criam pets... Enfim, somos animais como eles, contudo humanamente não se compara uma criança com um pet, são sujeitos e valores bem diferentes. Uma criança se parece mais com os pais, do que com um bicho e ela pertence mais aos desígnios de Deus, desde o início: “Sede fecundos, crescei e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a (Gn 1 – 28)”. Nesse contexto não se negue a existência da criança, mais importante do que os já crescidos adultos.
Quanto ao pai e à mãe, a criança não é apenas um ser humano na fase da infância, que vai do nascimento à puberdade. Criança, creantia , se origina no ventre materno e ao nascer, do verbo em latim creare, que significa criar, portanto torna-se uma cria, igual às crias ou aos filhotes do leão e da leoa, que os defendem e protegem com garra, unhas e dentes... Os mais antigos, sem brinquedos eletrônicos, celulares, pets et caterva, compreendiam mais a natureza de uma criança, com todos os seus valores antropológicos, como li em Elias Herckman, no texto Descrição dos Costumes dos Tapuyas, que comiam a carne dos seus mortos e farinha dos seus ossos, dizendo que o finado não pode ser mais bem guardado do que assado e ingerido pela tribo em que vivia: “Quando succede que alguma mulher dá à luz uma criança morta, elles comem igualmente o cadáver, dizendo que não lhe podem dar melhor sepultura do que no corpo d’onde veio”, cabendo à mãe a maior parte. Costume cultural dos Tapuias, guardando a criança bem ao lado do peito...