O sossego da ataraxia rejuvenesce
Tirar ou perder o sossego é expressão usada desde que, no mundo, começou a existir descanso. Há tempo que se diz que, logo depois da criação, o Criador teria descansado no sétimo dia (Gn, 2: 2 - 3). Modus dicendi , porque Deus não se cansa, apenas para dizer, na linguagem humana, que cessou de criar a sua obra, deixando a todos nós a missão da cocriação, e também o exemplo do repouso, quando se estabeleceu, para uns, o sábado e, para muitos, o domingo. Mas, o mundo muda e muito, transformando, às vezes, o estabelecido dia do sossego em dia da perturbação, da intranquilidade, quando acontecem muitos aperreios e se perdem muitos sossegos... É de se reclamar ou lamentar a perda do sossego.
Isso é filosofia da boa, sobre o que já se escreveram tratados e tratados, sobretudo citando Epicuro, retroalimentando o epicurismo, e tantas outras doutrinas que consagram estar a felicidade na ataraxia, no estado de imperturbabilidade, o que só se consegue com a contínua prática de equilíbrio e da elevação do espírito, desapego à luxuria e ao ganancioso pecado da acumulação. Difícil, sim, muito difícil, mas o que é bom sem ser difícil? A fácil acomodação não é o sossego; levar tudo ao laissez-faire até parece com a inatividade ou com o “deixa pra lá” para qualquer ação ou reação; até mesmo a submissão ao que “tudo que tem de acontecer acontecerá”. A compreensão de tudo isso nos dará um feliz estado de sossego, que rejuvenesce. Por que não se estabelecer limite populacional a cidades de grande porte?
A vida no campo é um lugar sossegado, o oposto ao frisson da cidade, sobretudo das grandes metrópoles, onde são normais trânsitos sufocantes, o corre-corre das multidões, carros tomando a vez dos pedestres; calçadas e casas sendo engolidas por automóveis e muros, por isso é que se elogia a parecida calma dos condomínios, comparando-a ao pacato bem-estar da vida interiorana, onde se pode abrir a porta, sentar na calçada, e desfrutar a brisa, ao final da tarde. Por lá ainda habita o sossego. Disso se conclui a razão de pessoas das grandes cidades saírem dos aglomerados dos edifícios para casas nos centros históricos, e ,de repente, irem morar nas pequenas cidades, acolhedoras, especialmente nas históricas.
As crianças praticam a teimosia de agir ou fazer o contrário dos padrões; desobedecendo aos adultos: beber água na palma da mão, e não no copo; sentar no chão sujo, e não e na cadeira; subir em lugares alto da goiabeira para comer o fruto. E justificando com uma lógica sui generis, que carece de intuitiva compreensão. Cultivo no meu jardim uma bela mangueira, cujas estações acompanho diariamente, na expectativa do seu sabor. Mas, certo dia, me deparei com um menino do condomínio, colhendo essas mangas num saco de supermercado e me aborreci por que ela teria tirado as mangas, a resposta foi extraordinária: - Eu só arranquei as verdes e pequenas...
Daí, concluí: não existe menino treloso, traquina ou desobediente, mas simplesmente adulto incompreensível, que não penetra nas fantasias infantis e que, assim, perde o seu sossego...