A religião com e sem ideologia
A religião contém, dentro de si própria, sua natureza de sentido ao sagrado transcendental. Visa fazer crescente e fundamentada, em sua doutrina, uma religação (religare, verbo do qual provém o termo religião) com o sagrado, com uma divindade superior — nunca inferior ou existencialmente terrena. Uma divindade tão superior que nos dê sentido à vida, mesmo considerando a nossa finitude; que nos faça discernir os valores que levam à boa conduta individual e à harmoniosa convivência em sociedade, transformando-a numa comunidade sã e cidadã, e propiciando o crescimento da fraternidade entre as pessoas, mesmo com conceitos e ideias diferentes, sobretudo quando se trata do pluralismo político.
O respeito e a intercomunhão dessa pluralidade reforçam, principalmente nos rituais de cada crença, a união fraterna que ajuda na construção de estruturações sociais e coletivas, independentemente da visão política de cada um. Que seja livre a visão ou opinião de cada indivíduo, sem a imposição de quem lidera qualquer manifestação religiosa. Nenhum papa, bispo, padre, pastor, pastora, imã (seja califa ou não), guru, babalorixá, dalai-lama, aiatolá ou rabino tem autoridade moral ou religiosa para impor sua opinião política, pessoal ou sua ideologia a qualquer fiel ou adepto da sua igreja, do seu templo, terreiro, mesquita ou sinagoga. Isso seria, em qualquer circunstância, profanar o nome do seu Deus em vão — e, tampouco, cabe na ideologia a proteção dos seus próprios interesses. Mas será que essa distorção religiosa está ocorrendo?
Ouvi, no início da década de 1960, o combate à ideologia apregoado pelo IBAD e pelo Rearmamento Moral. Ambos preconizavam “o fim da ideologia”, quando, na verdade, tais movimentos eram essencialmente ideológicos. Financiadas por milhões em recursos estrangeiros, essas instituições, que atuavam também no meio religioso, foram investigadas pela CPI do IBAD, presidida pelo admirável Ulysses Guimarães e que teve como vice o então deputado Rubens Paiva — protagonista do tema no premiado filme Ainda Estou Aqui (2024), dirigido por Walter Salles.
Comprovando-se tal intervenção nas eleições parlamentares de 1962 para deputados e governadores, o IBAD foi extinto e o Rearmamento Moral, desmantelado, por atuarem politicamente também junto a igrejas. Repito que eles combatiam a ideologia agindo robustecidos pela sua própria ideologia, e fortemente contra o sincretismo religioso — processo cultural que envolve a possível fusão de diferentes tradições, crenças e práticas, respeitando-se a existência de doutrinas religiosas e de outras expressões de cunho cultural e filosófico.
A história das religiões indica muito bem, em importantes tratados, como nascem as religiões e como elas são tentadas a envolver-se na política. Mostra também que, quanto mais envolvidas, mais morrem enquanto religião. Quanto às igrejas cristãs, Jesus Cristo admoestou: “O meu reino não é deste mundo”, em João, capítulo 18, versículo 36. Constata-se que as religiões, mesmo tendo o dever e o compromisso com a ordem e com a transcendência do sagrado, são tentadas pelo ouro e pelo poder.
Se analisados seus fins místicos, esses desvirtuamentos de certas igrejas significam a ironia das religiões, retratada no contraste entre o discurso ideal de paz, amor e sabedoria pregado pelas fés e as contradições humanas. Em contrapartida, contradições históricas ou práticas ocorrentes geram o oposto, como intolerância, ganância, conflitos, corrupção, hipocrisia ou, enfim, o uso da fé objetivando a dominação.
DESTAQUE: Constata-se que as religiões, mesmo tendo o dever e o compromisso com a ordem e com a transcendência do sagrado, são tentadas pelo ouro e pelo poder.
Enviado por Damião Ramos Cavalcanti em 08/10/2026
Alterado em 08/10/2026