A exemplar escolha do cacique aborígene
As sociedades politizadas sempre demonstraram capacidade de conhecer e distinguir suas relações sociais e de decidir sobre elas, sem que os governantes sejam distintos dos governados e apartados dos objetivos que seu povo deseja. Isso tem se revelado, na leitura da vasta e específica antropologia política, mesmo nas organizações das mais incipientes sociedades humanas. Nesse sentido, procurei aguçar minha curiosidade, em leituras e em conversas com outros curiosos e estudiosos sobre o assunto. Relembro, em companhia do amigo Professor Luizito, as vezes em que nos encontramos, oportunamente com o antropólogo Darcy Ribeiro e, mais constantemente, com o meu então vizinho no Bessa, Frans Moonen, professor e pesquisador da UFPB. A obra dele, Pindorama Conquistada: Repensando a Questão Indígena no Brasil (1983), deu origem à Editora Alternativa, de nossa iniciativa, cujo Conselho Editorial era composto pelos professores Luiz Dias Rodrigues, Damião Ramos Cavalcanti e o próprio Francisco Moonen.
Vivemos momentos de inquietude política, preocupados sobre a imensidão do problema que arrancava penas da nossa nação - preciosa ave, como se houvesse um plano de extinção que agressivamente lhe diminuísse as asas: o bem estar do povo e a sua liberdade. Estávamos atinados em separar em blocos as culturas indígena, quilombola e cigana para compreendê-las melhor e contribuir com o caminho certo, do qual nosso povo sempre carece. Daí, muito depois, quando exerci a função de Secretário de Estado da Cultura, idealizei as colunas mestras do Plano de Cultura. Eram três diretrizes principais para o trabalho, o estudo ou a preservação: A Cultura Quilombola, a Cultura Cigana e a Cultura Indígena. Delas se deveriam obter os objetivos principais do respeito à diversidade, garantia de direitos históricos e promoção da reparação social, o que já determinava a Constituição Cidadã de 1988, ao reconhecer o Brasil como um Estado pluriétnico. Portanto, estávamos dedicados a conhecê-las e a conversar com tais etnias sobre suas vidas comunitárias e suas dificuldades. Havia lemes para agir com discernimento, sabedoria e consciência diante de cada situação política.
Historicamente os tipos de organização ou de regimes políticos foram muito parecidos entre si até o século XX, como os que subsistiram nas reservas nativas, inclusive nas indígenas. Aqui, os indígenas, filhos primeiros nascidos na nossa terra, eram expulsos de seus territórios por fins econômicos, tentando improvisar um outro habitat. E sempre houve mortes, mártires, derrubadas de árvores e incêndios... Mas, em si, os indígenas preservavam a sua endocultura e, de geração em geração, suas tradições políticas. Maravilhava-nos como sucedia - variando um pouco nas centenas de etnias - a vida na política grupal ou a política na escolha dos seus líderes.
A escolha do líder político ou cacique, mesmo variando em detalhes na organização social de cada etnia, manteve grande aversão ao autoritarismo. Quando a linhagem familiar tentava valer o caráter hereditário para o filho e ele não assegurava capacidade para exercer a função, de imediato a comunidade escolhia outro líder. Geralmente, afastado o critério hereditário, sobressaíam-se como principais requisitos para a escolha do cacique: capacidade de compreender as necessidades e anseios da comunidade; clareza e busca por consenso nas decisões coletivas; capacidade de dialogar com os da reserva, com outras etnias e com instituições governamentais; habilidade para negociar com mundo dos não indígenas; desapego ao acúmulo de riquezas e zelo contínuo pelo bem-estar de cada um, com “sabedoria e oratória, priorizando a harmonia de todos”.
Na nossa terra, a riqueza cultural, histórica e os valores políticos foram sementes plantadas. Cultive-se o que temos de melhor. Usando como metáfora a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei Dom Manuel I de Portugal, em 1500: “Nesta terra, em se plantando, tudo dá!”
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