Damião Ramos Cavalcanti

Enquanto poeta morrer, a poesia haverá de viver

Textos


Antes morrer do que fugir... 
 

          A história nos narra exemplos incomparáveis de dever moral e político, com fatos que ainda hoje nos emocionam e, por isso mesmo, não devem ser esquecidos. Relembro o veredito iníquo contra Sócrates, por ter sido levianamente acusado de corromper a juventude e ainda sugerir a existência teísta de uma nova divindade — assunto do Apóstolo Paulo de Tarso no Areópago ao pregar, com aceitação dos que o escutavam: “Cidadãos atenienses! Vejo que, sob todos os aspectos, sois os mais religiosos dos homens. Pois, percorrendo a vossa cidade e observando os vossos monumentos sagrados, encontrei até um altar com a inscrição: ‘Ao Deus desconhecido’. Ora bem, o que adorais sem conhecer, isto venho eu anunciar-vos” (Atos 17, 23 – 24). E, quanto ao filósofo perverter a juventude, desde aquele tempo é normal que qualquer contrariedade ideológica seja chamada de subversão.

          A injusta condenação de Sócrates foi respondida, através da sua maiêutica, por seus conceitos de respeito à Justiça e à liberdade, mas também de obediência às leis. Imagino que há pessoas que nascem com a natureza de frutificar, como se fosse o destino da boa árvore, que já desponta contendo, no seu germe, a qualidade herdada dos pais e cultivada ou não pela família. Pois nenhuma semente nasce com a vida pronta. Contudo, o que fazer quando, ao sermos livres existencialmente, ocorrerem infortúnios que, humanamente, nos façam escravos dessas situações? Defrontamo-nos com uma dualidade quase insuperável, circunstanciada por algum fracasso, o que impõe ao derrotado, individualmente, superar-se ou comportar-se além de si mesmo, sendo capaz de agir com uma reta e ética conduta.

          A cela onde o prenderam era ampla, de rústicas paredes, e preservava deliberadamente a porta semiaberta e uma janela sem grades, como se lhe dessem a oportunidade de escapar; ao evadir-se, ele demonstraria a declaração de culpado e sentir-se-ia livre da sentença de morte. Ele foi incentivado pelo discípulo Críton, que lhe ofereceu dinheiro mais do que suficiente para uma distante viagem, detalhando todo o plano de fuga.

          Com equilíbrio, a maiêutica socrática raciocinou, conforme consta nos Diálogos de Platão, a dialética sobre virtude, amor, justiça e conhecimento: “Não se deve responder à injustiça com a injustiça, nem fazer o mal a homem algum, seja qual for o mal que dele se tenha sofrido”. Chegou quase a convencer o amigo de que, se partisse, estaria validando o argumento dos magistrados: “Nós tínhamos razão em condená-lo. Ele realmente não respeita as nossas instituições e é um fora da lei”. E não se moveu. O ato de desertar faria com que a punição parecesse justa e funcionaria como um argumento em favor das acusações. Compreenderam os discípulos, de acordo com o diálogo Fédon, a firmeza do mestre: antes morrer do que fugir...

          Então o guarda se retirou para preparar a bebida fatal e, em seguida, entregou-lhe a taça de cicuta com a forte dose venenosa; em lágrimas, retirou-se, havendo a certeza de que estava executando, ao cumprir tais ordens, um homem inocente, sábio e generoso. Sócrates, demonstrando total serenidade, pegou o cálice com firmeza, fez uma breve prece e bebeu o veneno de uma só vez, consolando os próprios amigos que choravam ao seu redor.

          Leia-se Sócrates, que nada escreveu, nas obras de Platão, Xenofonte, Aristófanes e Aristóteles. O quadro A Morte de Sócrates (1787), de Jacques-Louis David, encontra-se no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque.

 

DESTAQUE:  A injusta condenação de Sócrates foi respondida, através da sua maiêutica, por seus conceitos de respeito à Justiça e à liberdade, mas também de obediência às leis.

Damião Ramos Cavalcanti
Enviado por Damião Ramos Cavalcanti em 30/10/2026


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